Desconstruindo Tropa de Elite

Foto de Renato dos Anjos

Foto de Renato dos Anjos

Por Isabella Menezes

Da maneira como se apresenta, Tropa de Elite nos faz pensar que este é, além de um filme atual e contemporâneo, algo grandioso e que vem para marcar uma época na história do cinema nacional. De fato marcou. Assim como Cidade de Deus, Tropa de Elite é um dos filmes brasileiros mais vistos no país e no exterior e também, tão premiado e cantado em prosa e verso quanto. A primeira cena deixa claro que se trata de um filme urbano, moderninho, “carioca”, com direito à incursões em favelas, policiais em sua maioria corruptos e os famosos playboyzinhos da Zona Sul do Rio de Janeiro. A identificação do grande público é imediata. A cena e todo o filme seguem mais parecendo uma manchete dos telejornais locais, com policiais armados, muitos tiros, traficantes e funk proibido bem alto nos ouvidos de todos. Antes de ser lançado oficialmente, o filme sofreu um golpe que poderia ter sido fatal para seu faturamento e projeção nacional. Um funcionário envolvido na produção fez uma cópia pirata do filme já finalizado e o disponibilizou, tanto na internet, quanto na mão dos inúmeros vendedores ambulantes, os conhecidos camelôs, que faturaram bastante com um filme que se propunha a contar uma história próxima da realidade do “povão”, pessoas pobres e de comunidades carentes, que conheciam muito bem o cotidiano de violência que é mostrado no filme. Não se sabe dizer ao certo o quanto foi bom ou ruim o vazamento do filme na internet. A verdade é que este foi o filme mais visto de 2007 e pelo público mais diversificado entre si, uma vez que, da Região Sul ao Nordeste, as expressões usadas no filme, como “pede pra sair”e “você é um fanfarrão” podiam ser ouvidas em sotaques bem distintos. Ainda assim, com a profusão de cópias correndo o país e a esta altura, uma parte do mundo, a estreia nos cinemas conseguiu um número bastante expressivo em se tratando de cinema nacional e logo depois desbancou filmes americanos de grande porte nas bilheterias, alcançando o primeiro lugar durante as várias semanas em que ficou em cartaz em milhares de salas espalhadas pelo país e pelo mundo. No Brasil não se falava em outra coisa senão no Capitão Nascimento, o personagem exercido com muita devoção pelo ator baiano Wagner Moura. Capitão Nascimento tornou-se referência para tudo e suas frases de efeito foram parar na publicidade, na boca de crianças e adultos de todas as classes sociais. O personagem é inspirado no herói principal do livro “A Elite da Tropa”, best seller brasileiro, escrito por dois ex-funcionários do BOPE, Rodrigo Pimentel e André Batista, em parceria com o sociólogo Luiz Eduardo Soares e em cuja história o filme se baseia, mesmo que o diretor José Padilha insista em negar que seu roteiro é baseado no livro. José Padilha e Rodrigo Pimentel conheceram-se à época das gravações do documentário “Onibus 174”, que contava a trágica história do assalto à um ônibus em 2000, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro e que terminou com a morte de uma das reféns, numa ação inexplicavelmente incompetente por parte do BOPE e de toda a Secretaria de Segurança da época. O bandido foi morto por sufocamento, dentro da viatura policial, sob o olhar das câmeras de televisão postas nos helicópteros das emissoras. Nada aconteceu e ninguém foi punido pela Justiça em nehuma das duas mortes do caso. O documentário cumpre muito bem o papel dele; mostra-se imparcial e apresenta os dois lados da história, dando ao espectador a chance de decidir, por si só, quem tinha mais ou menos culpa naquela terrível história. Tropa de Elite viria na seqüência, também na forma de documentário. Depois de 2 anos de pesquisas junto ao BOPE e com o sucesso do livro, o caminho do filme foi tomando outro rumo, até chegar no roteiro final, que é considerado ficção, apesar de narrar uma história real e se colocar sob um único ponto de vista, o da polícia. Essa medida de neutralidade e imparcialidade infelizmente foi perdida em Tropa de Elite. Apesar do sucesso estrondoso e de seu valor inegável como fenômeno de crítica e, principalmente, de público, meu olhar sobre o filme destoava do da grande maioria que comentava ou escrevia sobre o filme. Minha sensação era a de que somente eu não tinha conseguido me divertir durante um filme em que a tortura, a utilização do Estado para favorecimentos pessoais pela polícia, a corrupção impregnada em todos os níveis da Instituição e o sucateamento das forças policiais carioca, não poderiam sequer parecer engraçado ou divertido sob os olhos do público, que, despreparado e sem parâmetros convencionais para um embasamento crítico sobre o ponto em que chegamos em termos de violência e corrupção, comprou a história de que somente os policiais do BOPE estão livres deste mal, entranhado em toda a polícia. A tortura não é tida por eles como algo de ruim, pelo contrário; ela é não só aceitável, mas justifícável e cotidiana, para aqueles agentes do BOPE. Aquilo não me divertiu mas me fez pensar e muito no que foi exposto em duas horas de narrativa. O Bem não é bom e o Mal distingue-se dele apenas pelo uso de uma farda por parte de seus praticantes. O público delirava. Em termos técnicos, este filme supera a grande maioria dos filmes nacionais; tudo no filme é de primeira: som, fotografia, edição, direção de atores, direção de arte, continuidade e etc. Enfim, ele realmente preenche se não todos, a maioria dos quesitos técnicos com excelência. Não à toa o filme acumulou até hoje quase dez prêmios, entre eles, o desejadíssimo Urso de Ouro, em Berlim, em 2008. O que incomoda a mim, particularmente, é o posicionamento claro a favor do BOPE e de seus métodos injustificáveis, em que se põe o ditetor e a maneira maniqueísta com a qual ele desenvolve sua narrativa cinematográfica e nos envolve em sua história. Diálogos e cenas beiram o esteriótipo de algo que ainda é distante de se atingir no Brasil: uma polícia absolutamente incorruptível. Qualquer pessoa bem informada, que saiba algo sobre políticas públicas e questões de segurança, já leu ou ficou sabendo de alguma posição ilícita de membros da corporação, seja em qualquer nível hierárquico. Empurrar “goela a baixo” do espectador que os homens que integravam o BOPE em 1997 estavam completamente imunes à corrupção e acima do Bem ou do Mal é como justificar e tentar fazer com que as pessoas acreditem que a culpa da situação absurda que se instalou nesta cidade é da turminha do “cigarrinho natural” e não de um imenso e poderoso sistema que conta com empresários, políticos e pessoas da esfera judiciária para garantir a compra, entrada, distribuição e vendas dessas drogas no país. É óbvio que as pessoas tem culpa por suas ações, mas simplificar um problema tão imenso e grave quanto este à um número irrisório de usuários de maconha, que no filme são rotulados como “mauricinhos da zona sul” (numa clara demonstração de preconceito, discriminação e categorização de uma parcela privilegiada da população) é como culpar a natureza pelas tragédias que ocorrem e não enxergar estas mesmas tragédias naturais como consequência do mal uso do meio ambiente. Não cola! Não preenche as lacunas corretas. Se a população carente consome drogas tanto quanto ou mais que a população de classe média ou alta, ambas são vítimas de alguma circunstância de maneira igual. Mudam as causas mas não as conseqüências. Não posso contestar o valor cultural do filme ou desdenhar sua proposta. De fato, foi a primeira vez que um filme brasileiro se dispôs a mostrar um ponto de vista diferente do que o que o cinema nacional estava acostumado até então, que era sempre o ponto de vista do bandido, da marginalidade ( Cidade de Deus, Carandiru). Pela primeira vez, a câmera estava não só do lado da polícia mas também a seu favor, através de um olhar manipulador, disfarçado pela naturalidade com que absorvemos a violência urbana como algo normal, habitual. O que tem para se lamentar é que não há para o público uma escolha de julgamento sobre o Capitão Nascimento ou mesmo o BOPE. O julgamento só é imposto aos usuários de droga, bandidos e à polícia militar, que é totalmente desmoralizada nesta narrativa que se posiciona tão a favor da corporação do BOPE, que se presta a justificar as ações tenebrosas exercidas pela equipe do Capitão Nascimento. Estes não são julgados por ninguém, nem mesmo pelo público. Muita contradição e manipulação num filme que se propunha a ser uma espécie de porta-voz do grande público, do povo que sofre com os traficantes dando ordens nas comunidades, mas que temem ainda mais os policiais do BOPE, que imbuídos do poder do Estado e no caso do filme com a concordância do público e crítica, são capazes de atos reprováveis e indescritíveis, tanto militar, quanto eticamente.

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