Por Isabella Menezes
Um espetáculo que começa com confissões de canibalismo contra criancinhas e de sexo violento com animais por parte de um furacão loiro vestido em botas de couro, cigarro na piteira e quase dois metros de altura, não está com medo do julgamento do público. E nem de si próprio.
A cena, protagonizada pela modelo e atriz Giani Albertoni, abre o espetáculo “Cachorras-Quentes”, uma comédia nonsense com texto de Luiz Carlos Góis, que se presta exatamente à isso: chocar, causar estranheza e, deste sentimento, extrair as gargalhadas intermináveis do público. Em cena com Giani está a experiente atriz Leticia Isnard, que com uma boa bagagem em comédias, torna mais fácil a movimentação cênica da top, que vem se dedicando exclusivamente nos últimos meses ao espetáculo, tendo inclusive recusado propostas de moda, demonstrando que o resultado obtido em cena não agrada por acaso.
A verdade é que as duas se completam no palco. Ambas tem monólogos na peça, mas é quando estão juntas, naquela ambientação da neurose mental em que as duas personagens principais (duas escritoras de um programa de televisão) estão submersas que a coisa pega fogo… a partir desta premissa, o espectador segue numa viagem alucinógena, com picos de nonsense total e humor negro da melhor qualidade. A realidade das duas escritoras (que também são namoradas e vivem em crise conjugal) e a fantasia de suas histórias se misturam e suas esquetes de trabalho são encenadas por elas mesmas, tornando tudo mais confuso, mas também muito mais divertido.
Vanusa, a professora de etiqueta falida e mal paga, que carrega 3 metros de trança para lá e para cá do palco, enquanto dá sua “aula” de boas maneiras, com direito à palavrões e grosserias extremas, demonstram que Giane Albertoni sabe bem encher um palco com a segurança de quem ensaiou muito, mas também de quem tem um talento natural inegável para a comédia. Ela sabe rir de si mesma e põe seu material de trabalho (seu corpo e rosto perfeitos) à disposição da arte cômica sem nenhuma vaidade. Seu desprendimento estético é tanto que, em outra cena do espetáculo, um duelo entre as irmãs hipocondríacas, Irênia e Iracêmia, que disputam entre si, o título de mais doente do hospital onde estão, da família e que sá, do mundo, Giane aparece irreconhecível, de peruca de piaçava e maquiagem de morto-vivo; uma imagem bem distante da top glamourosa, imortalizada nas fotos dos grandes desfiles para os maiores costureiros do mundo da moda.
Sua colega de cena também tem seu momento. Na cena em que a personagem de Letícia Isnard, a romântica e quase imbecil, Virnalise, conversa com uma amiga muda pelo telefone é impossível a platéia não vir a baixo de tanto rir. Sua conversa com a amiga com problemas na fala, para ser politicamente correto, segue e o diálogo gestual descontrolado e sem sentido lógico e o ar noir da cena nos levam à uma situação inusitadamente macabra, com direito a muito suspense e terror psicológico… tudo na maior graça do mundo, é claro!
O texto agitado, moderno e contemporâneo, nos tira do chão, da realidade cotidiana, do politicamente correto, da maneira “certinha” de ser que se impôs a nós e abusa das situações de humor negro e de frases que nos deixam com a consciência pesada, mas com a alma mais leve de tanto gargalhar, afinal todos nós temos um lado negro que detestamos mostrar aos outros, mas que adoramos quando alguém toma a frente e faz isso por nós. Identificação absoluta e diversão garantida.
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Cachorras Quentes http://www.cachorrasquentes.com.br/
Texto Luiz Carlos Goes.
Diretor Marcus Alvisi.
Com Gianne Albertoni e Leticia Isnard.
Teatro do Leblon, Sala Tônia Carrero, (Rua Conde Bernadotte, 26, Leblon). Tel.: 2274-3536. Capacidade: 210 lugares.
Quintas, sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 20h.
Ingressos: R$ 60,00 (quintas e sextas) e R$ 70,00 (sábados e domingos).
Classificação etária: 16 anos. Duração: 90 minutos.
De 06 de março até 03 de maio.
